quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O NASCIMENTO E O CORPO DE JESUS

Num curioso trabalho que nos apresentou, ilustre companheiro de lides-espíritas procura solucionar o problema do nascimento virginal de Jesus e da natureza do seu corpo. Apoia-se nos textos bíblicos e evangélicos, chegando à conclusão de que Jesus foi gerado por influência divina, mas o seu corpo era carnal, de natureza humana. Encontrou assim um meio termo entre o Jesus mitológico dos roustainistas e o Jesus histórico do Espiritismo. Acontece, porém, que os bíblicos, e mesmo os evangélicos (que só artificialmente se incluem na Bíblia) só oferecem segurança, nesse caso, para os cristãos dogmáticos, sujeitos a fé cega e à tradição textolátrica, ou seja, à adoração dos textos.

O nascimento virginal não é um dogma cristão, mas mitológico. Toda a mitologia grega e romana, que mais influíram na redação dos Evangelhos, bem como as demais mitologias dos povos antigos, estão cheias de homens-deuses que nasceram de virgens ou de mulheres casadas que coabitaram com deuses. A mitologia chinesa é também repleta de nascimentos virginais e miraculosos, a começar de Fo-Hi, o primeiro e lendário imperador da China. Teseu, o rei grego que entrou no Labirinto para matar o Minotauro, era filho de Netuno, e Pitágoras, o filósofo, era filho do deus Apolo.

Sudodana, rei de Magada, na Índia, casou-se com a jovem Maya Devi. Antes de coabitarem, a virgem concebeu o Buda, sob influência celeste. Os Evangelhos de Mateus e de Lucas oferecem-nos a versão cristã dessa lenda universal, contando o nascimento virginal de Jesus. Mas, o Evangelho de Marcos, que é o primeiro, apesar de estar em segundo lugar no texto canônico, e o Evangelho de João, que é o último, não se referem a esse fato miraculoso. Por outro lado, as cartas de Paulo, anteriores à elaboração dos Evangelhos que conhecemos, não fazem nenhuma referência a respeito.

Os estudos e as pesquisas de Mitologia e Etnologia, bem como de História das Religiões, provaram exaustivamente a origem agrária do mito do nascimento virginal. Isso levou Arthur Drews a escrever o seu famoso livro: “Jesus Cristo é um Mito”. As civilizações agrárias foram dominadas pelo mito solar. Na Ásia e na Europa o Inverno era considerado uma estação nefasta, pois os campos eram sepultados sobre a neve. Mas, passado o Inverno surgia no céu a constelação da Virgem, que dava nascimento ao Sol, o Messias, ou seja, o que trazia de nôvo as messes, as colheitas, a vida e a fartura. Assim, o Messias nascia da Virgem, que era virge mantes, durante e após o parto.

Os grandes estudos sobre a origem do Cristianismo, realizados através de sérias pesquisas, desde Renan até hoje, por professores universitários independentes, não filiados a nenhuma Igreja, provaram de sobejo que os Evangelhos sofreram a influência mitológica, dominante na época em que foram redigidos. Veja-se, por exemplo, a obra grandiosa de Charles Guignebert, na França. Isso, porém, não diminui o valor dos Evangelhos, mesmo porque a influência mitológica é facilmente identificada nos textos. Foi por isso que Kardec, ao elaborar “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, dividiu os textos em cinco partes, interessando-se apenas pela que nos apresenta o ensino moral de Jesus.

O grande milagre dos Evangelhos não está relatado nos textos. É o milagre da unidade, sem contradições, do ensino moral em todos eles. Fora desse campo os Evangelhos se contradizem e favorecem interpretações diversas. A Bíblia coleção de livros hebraicos muito anteriores aos Evangelhos, está ainda mais fortemente influenciada pela Mitologia. Apesar disso, representa valioso acervo de revelações espirituais, constituindo em seu conjunto a primeira revelação do ciclo do Cristianismo. Os espíritas não podem rejeitar a Bíblia, mas devem encára-la no seu verdadeiro sentido e da sua perspectiva histórica, sabendo entendê-la, bem como aos Evangelhos, segundo o espírito, e não segundo a letra.

A Mitologia não é uma criação imaginária dos homens. “O Livro dos Espíritos” nos mostra que ela se fundava na mediunidade. Mas, os tempos mitológicos eram obscuros e os fatos mediúnicos mal interpretados. Daí as superstições e os absurdos que os marcaram. As religiões posteriores, inclusive as que nasceram do Cristianismo, herdaram essa carga de absurdos. O mito do nascimento virginal infiltrou-se no Cristianismo primitivo e levou com ele o mito do corpo fluídico de Jesus. O Espiritismo vem esclarecer esses problemas e por isso Kardec nos apresentou uma concepção humana de Jesus, desmitificou a Virgem Mãe e lhe deu a grandeza real da maternidade natural, ao mesmo tempo que confirmou a natureza humana de Jesus. O Cristianismo não pertence á Mitologia, mas à História.

Assim, na Doutrina Espírita o problema do nascimento virginal e do corpo de Jesus já foi solucionado. Basta a leitura atenta d’ “O Livro dos Espíritos”, d’ “Evangelho Segundo o Espiritismo”, do capítulo 15 d’ “O Livro dos Médiuns” e do “Estudo sobre a natureza do Cristo”, em “A Gênese”, para se ver que a Doutrina considera Jesus como um Espírito Sublime que praticou a suprema abnegação de tomar a condição humana na Terra para ajudar a Humanidade. Nenhuma outra explicação poderia honrar o Mestre. A teoria do corpo fluídico é contraditória. (Roustaing refere-se a uma espécie de carne refinada e nesse caso não precisaria falar em corpo fluídico). Além disso, atenta contra a nobreza do Mestre, reduzindo-o a uma espécie de farsante espiritual. A teoria da pseudociese inclui a Virgem Maria na galeria patológica das histéricas. A teoria da fecundação artificial (vinda do plano espiritual) transfere para os espíritos Superiores os preconceitos humanos sobre as funções genésicas. Toda tentativa de negar o que o Cristo afirmou dele mesmo, como filho de Deus e filho do Homem, cai no ridículo.

Há um pequeno livro de Pierre Saintyves, “As Virgens Mães e os Nascimentos Miraculosos”, traduzido por Gastão Pereira da Silva, que oferece uma visão panorâmica do mito em linguagem popular e devia ser lido por todos os que se interessam pelo problema do nascimento de Jesus, e mesmo pela questão do corpo de Jesus. O autor não é espírita, nem o tradutor. Mas, nos oferecem um resumo dos resultados de pesquisas independentes sobre o tema, que na verdade interessa a todas as religiões, já que o mito da Virgem Mãe é universal. Para os espíritas há o interesse particular da concordância dessas conclusões com a posição doutrinária a respeito.

Faz-se grande alarde sobre o desaparecimento do corpo de Jesus do túmulo. Mas, não será dois mil anos depois que iremos encontrar a explicação do fato. As condições políticas de Jerusalém no tempo eram bem mais confusas e agitadas do que hoje. Há várias hipóteses perfeitamente plausíveis a respeito, mas todas são apenas hipóteses. O que nos interessa no caso é a lição moral que dele decorre: todos os túmulos estão vazios. Foi a última e decisiva lição que Jesus nos deu através do seu corpo. Outros alegam que as aparições de Jesus após a morte foram todas em corpo carnal. Mas, acaso não sabemos que as materializações podem ter aparência tão concretas que alguns cientistas se desinteressaram da pesquisa por acharem o fenômeno demasiado real? As materializações completas podem falar, comer, respirar como qualquer criatura de carne e osso, como o provaram as experiências de Crookes e Richet, além de outros.

No momento em que a cultura humana, segundo as previsões dos Espíritos, dá um salto em direção ao Espiritismo, ao invés de cuidarmos dos problemas culturais da Doutrina queremos regredir ao tempo mitológico? Em lugar de examinar os pontos de contato, cada vez mais numerosos, que se estabelecem entre as Ciências da Matéria e as Ciências do Espírito, queremos voltar aos debates teológicos da Idade Média? Os outros avançam e nós recuamos? Já está na hora de deixarmos de especulações estéreis e ilusórias. Temos muita coisa produtiva e séria pela frente, exigindo a nossa atenção. Cuidemos delas, preparando a fusão iminente da Ciência com o Espiritismo, pela qual estamos esperando há um século.


J. Herculano Pires

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Um comentário:

Virotti disse...

Este artigo era exatamente o que eu buscava para melhor explicar a questão do nascimento do Mestre Jesus, pois bem sei que o fato de não ter nascido de mãe virgem não diminui em absolutamente nada a grandeza do Mestre, bem como sei que Jesus veio a Terra humildemente, como todos os homens, o que prova sim o Seu grande valor espiritual, pois sofreu como nós na carne, e pela cruz sofreu mais do que toda a humanidade junta, para nos mostrar o caminho que devemos seguir se quisermos evoluir para o Pai, o Deus único, que não é dividido em três, como pregam, nem manda os homens para o céu ou o inferno eternos, pois é justo e bondoso. Que a Paz do Mestre esteja convosco!