terça-feira, 13 de abril de 2010

Falibilidade Humana

Dentro do histórico das crenças e da fé, conduzido através dos tempos, identificaremos opiniões egoístas que se diziam detentoras da verdade; apontaremos rituais e práticas que, antes de auxiliarem as pessoas, manipulavam as mentes frágeis e as dominavam; realçaremos a superficialidade das revelações espirituais por parte de alguns que, a qualquer custo, tentavam se firmar como gurus ou como personalidades importantes da fé; veremos Papas envolverem-se em conflitos políticos e materialistas, participando até mesmo na condução de guerras que ceifaram a vida de milhares de pessoas; lograremos encontrar o separativismo das religiões que pregam a paz, mas, sendo rivais, motivam conflitos violentos criados pelo fanatismo da imposição da crença.

Os seres humanos, falíveis, acabam por fazer de suas religiões - por mais puras que estas sejam – crenças totalmente frágeis, introduzindo as suas mazelas de interpretação pessoal no conjunto de preceitos de suas doutrinas, que irão agir como vírus vorazes a corromper e a deteriorar os pilares de sua fé.

Analisemos o passado da humanidade em busca das evidências religiosas que nos indiquem os pontos em que os indivíduos expoentes das religiões se equivocaram, e, dessa forma, poderemos vislumbrar que foram inúmeros os erros cometidos por parte das crenças na interpretação dos mecanismos divinos.

Quantas idéias e quantos dogmas religiosos a ciência teve que rejeitar por se mostrarem infundados e mesmo impossíveis de serem reais? O conhecimento científico moderno – ampliado a partir do século XIX – permitiu, que os preceitos das doutrinas ligadas à religião, fossem revistos sob um olhar crítico e observador, amplamente comprometido com a verdade.

Para as pessoas, era fácil acreditar nas alegorias e até mesmo nas narrativas mitológicas de muitos dos textos tidos como sagrados. Isso era comum, pois, não havendo o incurso da razão, devido à carência de conhecimentos específicos no passado, o homem se apoiava no sobrenatural para explicar os incontáveis fenômenos que o universo apresentava. Em toda parte do globo terrestre surgiram as práticas religiosas e suas características teológicas, cada qual à sua maneira, tentando dar explicações sobre os eventos extrafísicos.

É evidente que o homem sempre carregou consigo a idéia da sua natureza espiritual. Também é fato que a mediunidade sempre esteve presente na vida do homem desde os tempos mais remotos. Porém, as fantasias nas interpretações dos fenômenos espirituais eram predominantes, uma vez que não havia maturidade racional para analisá-los e até mesmo estudá-los. Esta foi a razão de Jesus ter dito que não poderia dizer muito à respeito das coisas do céu, porque nem mesmo das coisas da Terra nós sabíamos. Era preciso que o mundo terreno nos fosse revelado antes, cabendo aos trabalhos científicos essa tarefa. Só depois dessa revolução no saber que o mundo espiritual poderia ser revelado com exatidão, isento de criações mentais ilusórias e folclóricas.

Foi em meados do século XIX que tal observação foi comprovada. O Espiritismo nasce para o mundo em 1857, onde o conhecimento científico abrigava explicações suficientes para lhe sustentar os conceitos. Espíritos superiores trouxeram ao mundo as respostas tanto buscadas no passado. O homem seria explicado em sua essência – a realidade espiritual - através do pensamento racional e científico. Toda a codificação espírita seria conduzida da mesma forma que todo trabalho sério no campo da ciência. Sem dar espaço às explicações fantasiosas, Allan Kardec, dedicou-se a analisar, a comparar, a questionar e a comprovar os fenômenos e as teorias que se lhe apresentavam, valendo-se dos mesmos métodos da ciência material. Hoje temos, graças a este homem da ciência, o que ele chamou de fé raciocinada, ou ainda, de fé inabalável, que segundo as suas próprias palavras, é aquela que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade.

Concordamos que, a partir daí, o pensamento em torno da alma humana tornou-se uma filosofia bem organizada e totalmente destituída de teses vazias, completamente diferente das doutrinas fantásticas do passado. A doutrina espírita andará ao lado da ciência, tendo os seus postulados constantemente atestados por esta última, como se verificou nas pesquisas dos grandes nomes das academias científicas. Personalidades como William Crookes, Alexandre Aksakof, Cesare Lombroso, Gustav Geley, Charles Robert Richet – prêmio Nobel em Fisiologia –, e outros muitos cientistas que se ocuparam dos fenômenos chamados mediúnicos, provaram por meio de métodos científicos a existência do Espírito, este ser que personifica a verdadeira condição existencial de cada ser humano.

Desde o seu surgimento, o Espiritismo se espalhou pelos diversos pontos do planeta. Instituições foram criadas para abrigar o estudo da sua filosofia e para fomentar a prática mediúnica de caráter sério e instrutivo. A nova revelação tinha, a partir de então, a missão de levar ao conhecimento dos homens as elucidações a respeito de seu destino no universo: “a criatura humana não estava destinada a encerrar-se nos túmulos dos cemitérios. Cada indivíduo é um Espírito, ser inteligente e imortal, que viveu e que viverá outras vidas, em outros cenários e em diferentes épocas, ascendendo em direção à perfeição.”

Entretanto, é útil lembrarmos do assunto introdutório, avaliando o processo de confusão em que se perderam variadas correntes do pensamento religioso. Ainda somos seres rudimentares em se tratando de evolução espiritual e, portanto, de evidente fraqueza moral - almas logicamente falíveis. Se nos reservamos o direito de questionar a infalibilidade dos representantes de qualquer crença, por que razão nós estaríamos isentos de tais questionamentos? Os espíritas são iguais a todos os outros homens e, como eles, têm os mesmos defeitos e imperfeições, que precisam ser levados em conta durante a condução do movimento doutrinário e nas suas respectivas decisões.

Alguns afirmarão, contudo, que a doutrina é perfeita e não entra em contradição. Sim, os Espíritos superiores desenvolveram, nas cinco obras básicas de Kardec, um conjunto de ensinamentos de lógica inegável, sem precedentes para dúvidas ou mistificações, ou seja, uma ciência clara; uma filosofia plena; uma religião pura. Mas está na falta de compreensão desses postulados e na falta do estudo profundo da revelação espírita o que podemos chamar de “erva daninha” do movimento espiritista.

O espírita desavisado, ou desinformado doutrinariamente, contribui para a deturpação dos postulados do Espiritismo, já que as suas suposições de pouco conteúdo farão com que as atividades das quais participa sejam realizadas de maneira incompleta e incorreta, sendo preenchidas com práticas e conhecimentos claramente provindos de outras escolas do pensamento, chegando a ser, muitas vezes, claramente antagônicas aos princípios das “obras kardequianas”. Eis o motivo pelo qual muitas das instituições espíritas importam atividades, filosofias alternativas e passatempos de diversos setores da sociedade, totalmente alheios aos conhecimentos doutrinários: a falta de dedicação no que concerne ao entendimento preciso do Espiritismo.

É assim que se introduzem as revoluções na prática espírita e surgem as “novas revelações” dentro do movimento. Revelações que, de fato, não passam de velhos hábitos do homem, que se compraz em permanecer no escuro das teorias folclóricas e no engano dos rituais estritamente materialistas.

Torna-se fácil perceber que com a mediunidade não é diferente, pois, trata-se de uma atividade de grande importância para a prática do espiritismo. A reunião mediúnica é um dos principais alvos dessa “erva daninha”.

A influência do nosso passado mágico bate à porta. Um pretérito de encarnações como seres de desenvolvimento intelectual reduzido, escravizados durante milênios na crença mitológica e ávidos por entrar em contato com o mundo dos Deuses, ressurge, de maneira intensa, excitado pelos arquivos do inconsciente. É assim que, diante da possibilidade de vasculharmos o invisível através da mediunidade, ansiosos por nos comunicarmos com os Espíritos, lançamo-nos à prática mediúnica. Muitos de nós nos colocamos como candidatos a possíveis médiuns por curiosidade, outros muitos por vaidades travestidas em humildade, porém poucos são os que realmente se comprometem com o trabalho e com estudo sério. Não é raro encontrarmos comunicações inconsistentes dentro das casas espíritas; não é difícil identificarmos pseudos médiuns dentro dos grupos mediúnicos; preocupações nos invadem constantemente, pois, sabemos que há nas instituições espiritistas dirigentes e freqüentadores que aceitam todas as comunicações mediúnicas como verdades absolutas, esquecendo-se da necessidade de se avaliar tais comunicações minuciosamente, contestando ou comprovando os dados que estas apresentem.

É nessa hora que o entendimento do processo mediúnico se torna importante, pois, passamos a controlar a faculdade e, acima de tudo, enxergamos, definitivamente, que não se trata de um fato milagroso ou surreal, mas sim de um fenômeno explicável, racional, isento de superstições. O médium passa, então, a ser um trabalhador munido de uma ferramenta comum de trabalho, podendo realizar a sua tarefa com confiança e conhecimento de causa, sem deixar-se levar pelas ilusões da imaginação.

Cabe a nós nos indagarmos com freqüência: Como será que os médiuns atuam nos dias de hoje, que tipo de mensagens recebemos em nossas casas espíritas, como encaramos as comunicações que chegam até nós?

Será que estamos sendo verdadeiramente eficientes na condução do espiritismo experimental, através do fenômeno medianímico, agindo como observadores e estudiosos freqüentes?
Para nós, os perigos que rondam a Doutrina Espírita estão caracterizados na tentativa de “igrejificar” a Doutrina Espírita, de preenchê-la com dogmas contestáveis, de instaurar práticas ritualísticas, de priorizar a realização de festividades ou de solenidades que fazem do centro um mero ambiente de exibição social, e, principalmente, a mania que se tem de introduzir conceitos infundados a respeito de qualquer postulado que a Filosofia Espírita apresente.

É necessário, portanto, escolhermos o destino que queremos dar ao Espiritismo. Uma crença fragilizada, onde haja lugar para erros e desfile das vaidades pessoais, ou uma fé robusta, que traz em seu seio as respostas a respeito do destino de todos os homens, buscando conduzi-los na construção de um mundo novo?
Henrique Silva Pirola

domingo, 28 de março de 2010

(IV)
O PASSE - SEU ESTUDO
Jacob de Mello

1 DEFINIÇÕES E MENÇÕES ESPÍRITAS
1.1 - De Allan Kardec
“É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício; mas, a de curar instantaneamente, pela imposição das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional”6.
“A mediunidade curadora (...) é, por si só, toda uma ciência, porque se liga ao magnetismo, e não só abarca as doenças propriamente ditas, mas todas as variedades (...) de obsessões”7. E ainda acrescenta: “(...) Aí nada queremos introduzir de pessoal e de hipotético, procedemos por via de experiência e de observação”.
“Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual, provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispiritual”8.
Diz ainda Kardec: “O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos (...)”9. Quando, estudando os possíveis problemas que poderiam surgir entre a “mediunidade curadora” e a lei, Kardec abriu indagações que, por si sós, ratificam o que dissemos acerca de ele usar os termos do magnetismo para se referir ao passe: “As pessoas não diplomadas que tratam os doentes pelo magnetismo; pela água magnetizada, que não é senão uma dissolução do fluido magnético; pela imposição das mãos, que é uma magnetização instantânea e poderosa; pela prece, que é uma magnetização mental; com o concurso dos Espíritos, o que é ainda uma variedade de magnetização, são passíveis da lei contra o exercício ilegal da medicina?”10.
Mesmo fazendo uso dos termos mais comuns a época, fica evidente que o passe foi considerado e estudado por Kardec com as mesmas seriedade e gravidade que se tornaram sua marca registrada na condução do árduo trabalho da Codificação Espírita.
Quando fazemos a ligação entre as terminologias empregadas hoje com as do “ontem recente”, pretendemos convir, sempre e mais uma vez, com Kardec quando, nos primórdios do Espiritismo, já nos orientava sobre o proveito advindo com a Doutrina Espírita, a qual nos lança, de súbito, numa ordem de coisas tão nova quão grande, que só pode ser obtido “Com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado”11. Daí a necessidade de sermos sérios e graves ante os assuntos do Espiritismo, em especial quando tratamos de temas pontilhados de personalismos, controvérsias e pouco estudo, como é o caso do passe.
6 KARDEC, Allan. Curas, In “A Gênese”, cap.14, item 34.
7 Da Mediunidade curadora. “Revista Espírita”, set. 1865.
8 KARDEC, Allan. O passamento. In “O Céu e o Inferno”, 2ª Parte, cap. 1, item 15.
9 KARDEC, Allan. Daí gratuitamente o que gratuitamente recebestes. In “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. 26, item
.10 A Lei e os médiuns. “Revista Espírita”, jul. 1867, p. 203.
11 KARDEC, Allan. Introdução. In “O Livro dos Espíritos”, item 8.
12 DENIS, Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In “No Invisível”, 2ª Parte, cap. XV, p. 182.

1.2 - Clássicas (Contemporâneos de Allan Kardec)

Angel Aguarod assim se pronunciou: “Deixemos as drogas e os tóxicos para os hipnotizadores e reservemos para os magnetizadores a medicina do espírito, pois na alma se concentra toda a sua força e todo o seu poder”13
Albeít De Rochas já fazia menção ao termo “passes”, assim como à imposição de mãos”. Observese, por exemplo, como o erudito escritor e engenheiro português, Dr. Antonio Lobo Vilela, fala sobre ele no seu livro “O Destino Humano”: “O processo experimental de De Rochas (utilizado para indução à regressão de memória) consiste no emprego de passes magnéticos longitudinais, combinados, por vezes, com a imposição da mão direita sobre a cabeça do passivo”. (Grifos originais)14. Mas falar de De Rochas seria praticamente dispensável já que todos os estudiosos do magnetismo, onambulismo e exteriorização da personalidade (desdobramento) não regateiam elogios e citações ao mesmo. Apesar disso, lembraríamos que após estudar a “transplantação” das doenças - que se dava fazendo-se passar as doenças de uma pessoa para outra ou então para um animal - sugerida por um certo abade Vallemonte, no livro, “Physique Occulte”, escrito em 1693, e que ressurgiu em fins do século passado, rebatizada por “traspasses” em plena Paris e implantada em alguns hospitais dali, concluiu ele pela ineficácia de ambos os métodos e, então, preferiu se utilizar dos passes nas suas sessões de estudo sobre os “eflúvios” e a “exteriorização da sensibilidade”.Para concluir este item, façamos um resumo histórico com Gabriel Delanne: “A ciência magnética compreende certo número de divisões, conforme as diferentes categorias de fenômenos “(...) Os anais dos povos da antiguidade formigam em narrativas circunstanciadas, que mostram o profundo conhecimento que do magnetismo tinham os antigos sacerdotes. “Os magos da Caldéia, os brâmanes da Índia curavam pelo olhar (...). Ainda hoje, na Ásia, (...) os faquires cultivam com êxito as práticas magnéticas (...).
“Os egípcios (...) empregavam, no alívio dos sofrimentos. os passes e a aposição de mãos, como os executamos ainda em nossos dias “
(...) Amóbio, Celso e Jâmblico ensinam em seus escritos que existia entre os egípcios, em todas as épocas, pessoas dotadas da faculdade de curar por meio da aposição das mãos e de insuflações (...) “(...) Os romanos também tiveram templos onde se reconstituía a saúde por operações magnéticas Conta Celso que Asclepíades de Pruse adormecia, magneticamente, as pessoas atacadas de frenesi
“(...) Quem obteve, porém, maior fama nessa matéria, foi Simão, “o mágico”, que, soprando nos epilépticos, destruía o mal de que estavam atacados.
“(...) Na Gália, os druidas e as druidesas possuíam em alto grau a faculdade de curar, como o atestam muitos historiadores; sua medicina magnética tornou-se tão célebre que os vinham consultar de todas as partes do mundo. (...) Na Idade Média, o magnetismo foi praticado, principalmente, pelos sábios
“(...) Avincena, doutor famoso, que viveu de 980 a 1036, escreveu que a alma age não só sobre o corpo, senão ainda sobre corpos estranhos que pode influenciar, a distância.
“Arnaud de Villeneuve foi buscar nos autores árabes o conhecimento dos efeitos magnéticos (...). “(...) Van Helmont dizia: (...) O magnetismo só tem de novo o nome (...)“(...) Em 1682, assinalaremos Greatrakes, na Inglaterra, que fez milagres, simplesmente com as mãos (...)”16, etc

segunda-feira, 22 de março de 2010

(III)
O PASSE - SEU ESTUDO
Jacob Mello
É preciso confessar, entretanto, que não garimpamos sozinhos; contamos com muitas ajudas, de todos os níveis e de todos os "planos". Todas, sem exceção, foram valiosíssimas; mesmo aquelas que, de momento, não conseguimos entender, fossem por estarem além de nossa capacidade de tirocínio ou por extrapolarem os largos limites de nossa imperfeição. Por isso mesmo, todos os méritos deste trabalho são dos Espíritos (encarnados e desencarnados) que - na pessoa dos vários autores consultados, dos amigos que sempre vibraram por nós outros, dos familiares e companheiros que aturaram nossa "teimosia por escrever um livro", dos críticos que escolhemos (e aqui
queremos fazer uma ressalva especial para citar a estimada confreira Sarah Jane, pois, devemos a ela uma gratidão enorme, pelo seu empenho e destemor, inteligência e seriedade, estudo e atenção, sem o que esta obra estaria incompleta e com limitações) e dos que se escolheram, dos irmãos que apreciaram os rascunhos e os originais, orientando-nos, todos, com suas judiciosas ponderações, daqueles que tenham tentado
nos deter ou atrapalhar nossa manifesta intenção de concluir tal trabalho, e dos que nos ajudaram direta e indiretamente, de forma reconhecida ou anonimamente - só contribuíram para a ocorrência de tudo de bom que aqui se encontre.
Entretanto, queremos registrar, explicitamente, que é do autor, e só dele, de maneira indivisível e absoluta, todo e qualquer ônus que pese por quaisquer equívocos, indelicadezas, desvios ou colocações menos felizes que, porventura, sejam ou venham a ser localizadas nesta obra, pois, temos certeza plena de que se tal se der terá sido por exclusiva pequenez deste menor dos menores irmãos de Jesus, deste que se reconhece
como um dos mais modestos dos discípulos de Kardec.
Jacob Luiz de Melo
Natal (RN), outubro de 1991.

CAPÍTULO I - O PASSE - DEFINIÇÕES
“A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade
que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora” - (Allan Kardec)2
É fora de dúvida que nenhuma Ciência pode ser bem entendida quando não se busca, antes, o conhecimento de sua base, de seus fundamentos. Sendo o Espiritismo, de fato e por definição, uma Ciência e como tal estabelecida por seu insigne Codificador, compete-nos buscar-lhe os princípios para não vagarmos em raciocínios periféricos quando nosso propósito é o do conhecimento coerente. Os conhecidos “fatos espíritas”, hoje denominados “fenômenos mediúnicos”, ao lado da aplicação analisada e estudada do Magnetismo, foram os propiciadores da parte cientifica da Doutrina Espírita. Allan
Kardec, entretanto, não se limitou a observá-los e estudá-los com profundidade; a partir daí, ele compôs todo o arcabouço teórico e prático do Espiritismo. Desde então tornou-se inconcebível estudar-se a mediunidade sem sedimentar alicerces nos registros kardequianos. Tal tentativa equivaleria a se querer edificar uma construção de grande porte sem antes certificar-se das condições do solo nem cuidar da robustez de suas fundações. Afinal, sem base sólida e robusta não há construção segura. Decorrentemente, o presente estudo sobre o passe, o qual é uma das mais usuais derivações práticas da mediunidade e do magnetismo na Casa Espírita, para ser coerente e consentâneo com a Doutrina dos Espíritos, estará revestido de grande cuidado quanto a sua fundamentação doutrinária. Não queremos fugir da figura evangélica que lembra ser prudente o homem que constrói sua casa sobre a rocha para assim suportar a chuva que cair, os rios que transbordarem e os ventos que sobre ela se abaterem3. Daí iniciarmos por Allan Kardec e seu Pentateuco, símbolos maiores da sólida rocha doutrinária do Espiritismo, e com ele seguirmos até o fim da obra.
Na síntese em epígrafe, é inequívoca a seriedade com que Kardec se postou ante a “mediunidade curadora”. Tanto assim que a ela se refere como uma “coisa santa”, claramente ressaltando a nobreza de caráter da qual deve se revestir todo aquele que se disponha a esse verdadeiro labor divino, a fim de agir, em todos os momentos, “santamente, religiosamente”. Mas, caráter nobre é formatura adquirida nos modos e
hábitos diários e não apenas em certos momentos, quase sempre vivenciados na esporadicidade de fundo imediatista, interesseiro ou comodista Conscientes dessa posição, podemos analisar inicialmente alguns aspectos que dizem respeito as definições e menções que adiante iremos apreciar. Isso porque não foi normalmente sob o nome passe, mas, via de regra, como “dom de curar”, “mediunidade curadora”, “imposição de mãos”, que o Codificador se referiu ao assunto em estudo. Além disso, em diversas ocasiões tratou deste tema nominando-o, genericamente, “magnetismo”, ainda que nessas oportunidades não deixasse dúvidas sobre que tipo de magnetismo4
se referia.
Na definição de mediunidade curadora dada por Kardec (é gênero de mediunidade que “consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação”5), já se percebe a abrangência com que ele tratou a matéria
Uma outra verificação bastante comum é que, se formos analisar enciclopédias e dicionários, notaremos que nem todas as referências existentes são em relação ao passe (no singular), que é a maneira usualmente empregada tanto no meio Espírita como na literatura espiritualista em geral, mas, preferencialmente, aos passes (no plural).
Importa ainda considerar que o termo “passe” tem significados distintos. Inicialmente era o passe apenas o nome dado ao gesto (ou ao conjunto destes) com fins de se movimentar “eflúvios”. Depois, entendido como atividade de cura, generalizou-se como a própria política da cura. No entendimento Espírita, ora é evocado como um, ora como outro sentido. Apesar disso, na maneira como venha a se empregar o termo, passe tanto pode ser entendido como uma terapia espírita, como uma parte do magnetismo, como
uma técnica de cura ou ainda como o sentido genérico da “fluidoterapia”.
Isto posto, vamos às definições, menções e equívocos que envolvem nosso assunto, advertindo antecipadamente que limitaremos tais abordagens pois ao longo da obra surgirão muitas outras oportunidades para novas citações, das mais variadas fontes.
2 KARDEC, Allan. Daí gratuitamente o que gratuitamente recebestes. In: “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. 26,
item 10.
3 Mateus, VII, vv. 24 e 25.
4 Trataremos do assunto com mais detalhes no capítulo VIII - As Técnicas.
5 KARDEC, Allan. Médiuns curadores. In “O Livro dos Médiuns”, cap. 14, item 175b.
(ESTA PAGINA SERÁ MODIFICADA SEMANALMENTE)

domingo, 14 de março de 2010

II)
O PASSE - SEU ESTUDO
Jacob Mello
Antes de prosseguirmos, analisemos as situações apresentadas já que, por serem muito comuns, justificam aproveitemos o ensejo.

1. "Foi fulano que me ensinou assim"; esta é a típica desculpa da pessoa que se sente (ou se diz) sempre "indisposta" e que, portanto, "não tem tempo para estudar". Perguntamos: será que só falta tempo mesmo para o estudo? E nosso propósito de servir ao próximo não merece de nós mesmos um pouco mais de esforço e dedicação? Será que nós gostaríamos de sermos atendidos, por exemplo, por um médico que nunca tem tempo para estudar? E será que a pessoa (ou a obra, Instituição, curso, etc.) que nos ensinou, ensinou "tudo" mesmo e, se ensinou, o fez correto? Como saber reconhecer sem estudar? Bem se vê que só o estudo pode fornecer a segurança devida e nos coloca racionalmente ante nossos compromissos para com os irmãos que buscam nossa ajuda.

2. “Jesus só impunha as mãos e curava, portanto (...)"; aqui já não se trata de simples falta de estudo, mas, de desconhecimento até d'O Novo Testamento. Ao longo do livro, teremos oportunidade de (KARDEC, Allan. Da lei de adoração. In “O Livro dos Espíritos”, Parte 3ª, cap.2, item Adoração exterior, questão 655). apresentar várias situações envolvendo a ação fluídico-magnética do Cristo e veremos que não era só por imposição de mãos que Ele agia. Fica, desde já, a recomendação de que façamos uma leitura daquele livro, para conhecermos mais proximamente a figura de Jesus e seus exemplos morais e práticos de como atuar nas curas.

3. "Já faz tanto tempo que aplico assim e dá bons resultados"; de fato, nada nos impede de procedermos sempre de uma única maneira em nossas atividades e, ainda assim, nos sairmos bem; contudo, isto jamais quererá dizer devamos limitar nosso aprendizado - no que quer que seja - a apenas um método, a uma só ação, pois, nada há no mundo que seja ou deva ser tão restritamente especializado, Além do estudo e da pesquisa, nos compete, igualmente, um pouco de empenho e criatividade (no bom sentido) a fim de favorecermos nosso progresso. Afinal, o que "hoje" é considerado como resultado positivo não descarta a grande possibilidade de, em se melhorando o método ou as técnicas, obtê-lo mais excelente ainda "amanhã".

4. "Como a técnica é dos Espíritos, deixo que me utilizem e não atrapalho"; com toda franqueza, os que assim agem tomam uma postura, no mínimo, ridícula. Se nós evoluímos tanto nos Planos Espirituais quanto na Terra, por que não começarmos nosso aprendizado aqui, para aprimorá-lo quando lá estivermos?
Por que não pensarmos, a despeito dos Espíritos serem os grandes detentores das técnicas, que nossos conhecimentos e estudos contribuirão eficazmente nos processos de atendimentos fluidoterápicos, pois, permitirão que o trabalho se realize de forma mais participativa? E afinal, queremos ser médiuns passistas de fato ou simples marionetes nas mãos dos Espíritos?
E os Espíritos Superiores, por sua vez, estarão solicitando nossa participação como meros brinquedos liberadores de fluidos ou como companheiros efetivos nas atividades fraternas em favor das criaturas necessitadas? Meditemos; meditemos bem, pois, assim como não nos cabe "atrapalhar" os trabalhos dos Espíritos amigos, compete-nos o dever de darmos e fazermos o melhor de nós mesmos, sempre!
Retomando nossa idéia inicial, quando nos propusemos escrever esta obra, com surpresa descobrimos que a bibliografia não Espírita sobre o assunto é muitas vezes mais volumosa e variada que a nossa, o que, de certo modo, nos deixou levemente desapontados. Após "correr" as obras Espíritas sobre o passe e as "clássicas do Magnetismo" que conseguimos consultar, partimos para aquelas outras, nas quais encontramos: fartas pesquisas, sérios aprofundamentos, hipóteses intrigantes e instigantes, e muitas novidades.
Infelizmente, porém, tudo de bom que lá se encontra quase sempre está misturado com muitas bobagens, montes de coisas sem qualquer fundamento, algumas (poucas, graças a Deus) afrontas à moral, a Medicina e aos princípios éticos do bom senso, e tantos absurdos destituídos de qualquer lógica ou respaldo.
Como resultado disso tudo, tivemos que nos "vestir" de "garimpeiros do passe" para conseguirmos extrair dali as "pérolas dos bons ensinamentos", procurando não confundi-las com as "argilas endurecidas e cristalizadas dos equívocos e despropósitos" tão virulentamente a elas agregadas.
Nessa "garimpagem", concluímos pelo que excedia em evidência: grandes descobertas, graves estudos, profundas pesquisas e excelentes práticas podem e devem ser encetados nesta área pelos espíritas, pois, sem dúvida alguma, somos "garimpeiros" privilegiados. Dispomos de uma "mina a céu aberto" (a Doutrina Espírita), o que nos livra de qualquer escuridão; contamos com cinco "mapas" (o Pentateuco Kardequiano) magnanimamente codificados; acompanham-nos "guias" (a Espiritualidade Superior) com profundos conhecimentos do terreno e das tarefas; dispomos de "detalhes técnicos" (as obras subsidiárias de Espíritos como André Luiz, Emmanuel e Manoel Philomeno de Miranda) de riquíssima precisão; temos à mão informações "geológicas do solo" com perfis (as obras clássicas e modernas do Magnetismo) já devidamente testados; não nos faltam "elementos" ("nossos" pacientes) para trabalharmos em nossa mineração;
possuímos "ferramentas" de primeira qualidade (nossa boa vontade e a disposição de servir); e, como se não bastasse, o nosso senhor é o maior e o melhor de todos os amos (Nosso Senhor Jesus-Cristo, em nome de Deus).
Foi refletindo assim que decidimos aprofundar um pouco mais o estudo sobre o passe, mesmo porque, aquilo que apresentamos como crítica generalizada logo no início desta "explicação", antes que em qualquer pessoa ou Instituição, ela foi aplicada sobre nós mesmos, com toda veemência e honestidade possível.
E por pensarmos que não seria justo fazermos todo um trabalho de pesquisa, análise e estudo, no qual encontramos verdadeiras "jóias raras", e não dividirmos as benesses daí advindas (tal como exemplificou Allan Kardec quando acabou de compor aquele que seria a primeira edição de "O Livro dos Espíritos"), aqui trazemos nossa modesta "garimpagem", no intuito de assim contribuirmos para um enriquecimento, um conhecimento e um estudo mais acurado sobre o passe, da parte de todos nós.
(ESTA PUBLICAÇÃO SERÁ RENOVADA SEMANALMENTE)